domingo, 16 de setembro de 2012

O conto da Agulha no Palheiro.

... E foi que num certo dia, numa boca das três hora da tarde, tempo em que o sol ultrapassa o pano dos nosso chapéu, e bate no cucurute da cabeça, parecendo que vai assar os miolo, que eu tava em pé, de frente do galinheiro e com a mão no queixo... só esperando o diabo da galinha botar mais um ovo, pra eu completar os dois da gemada de denoite...Tava com a mão no queixo, por que tava admirado com as coisas da natureza... E a galinha parece que sabia que eu ia comer mais um fio dela, e tava demorando de botar... mas num foi nada não...
Com poucas, eu to ouvindo uns grito que vinha de lá do lado do palhol, me chamano, parecendo que tinha morrido alguém... Era uns diabo de grito fino: - Ô Zé!, ô Zé! Pelo amor de Deus!
Era uns gritos desesperado, misturado com choro.
- É os grito da Dália... Quando eu pensei nisso, esqueci da galinha, do ovo, das bota, e partir correndo pro palhol...
Antes de chegar no palhol, eu acho bom explicar pra vocês quem é a Dália... Dália é o amor de minha vida! É a mulher que eu conheci e a única que me conheceu... Desde pequeno que eu sou ligado com a Dália. Ela era fia do Seu Manoé, que morava no Sitio do outro lado, e que era tio do Bernadim, grande amigo meu! Bernadim, foi pego de surpresa se agarrando com a minha irmã... a assanhada Crotilde. Foi um arranca rabo, só! Bernadim casou com Crotilde, cedo. Crotilde era bonita, mas tinha uma voz chata, que toda vez que falava uma coisa, a gente iguíava de tanto nojo. Coitado do Bernadim... Lascou-se!
Mas, voltando a história, a Dália aparece nela, depois que o Bernadim foi pego com a Crotilde. Na verdade, ele namorava a Crotilde e eu a Dália. Era uma espécie de troca, sabe? E que troca eu fiz...
Depois de um tempo, eu e a Dália casou. Casamo porque queremo... não foi forçado, nem pego de surpresa não... Então viemo morar aqui no sítio. Tivemo doze fies, na verdade somo casado há vinte cinco, mas os três primeiro ano a Dália, não queria namoro sério. Namoro sério, sabe? Eu só conseguir convencer ela depois do tercero ano de casamento, por isso doze fies. Na verdade, doze, porque há uns nove, dez, ano atrás, a gente comprou uma televisão... Ô arrependimento dos diabo!  A Dália não fazia outra coisa a não ser crochear e assitir.
Mas voltano a historia, hoje, quando os menino quer assistir um negocio de: “Vale a pena ser direito”, “Seis são da tarde”, a Dália cede a televisão pra eles, e vai crochear no palhol. Senta lá nos bolo de feno e crochea o resto da tarde...
Então, quando eu percebi que era os grito da Dália, eu parti correno e fui lá vê o que tinha acontecido.
Quando eu cheguei lá, a Dália, tava gritando que tinha perdido a agulha no palhol. E queria que eu procurasse... Então eu jurei a São Tomé, que só acreditaria veno... No caso a agulha, pra ver se enganava o santo. Mesmo assim num adiantou. A Dália disse que tinha perdido a agulha banhada a ouro, que a tataravó de sua bisavó, tinha deixado pra sua avó, que a deu de presente de casamento. Era uma espécie de tradição, já... Pertencia a cultura delas, passar essa agulha de uma pra outra. A Dália mesmo, já tinha prometido ceder a agulha, pra Ermeline, nossa menina mais nova. Ela tem esse nome, em homenagem a um filme que passa quase todo dia na Seis são da tarde... Um tal de Lagoa Zul.
O problema, é que a Dália, não se conforma com a idéia de que um dia, essa agulha ia ter um fim. Afinal, tudo tem um fim... Mas ela queria a agulha. Ainda mais, agora que tava crocheando uma camiseta pro Jão... nosso fie mais veio. E eu perguntei a Dália se outra agulha, num sirvia... E ela dizia que não! Que só sirvia a da tataravó, da bisinha dela...
Nesse momento, eu comecei a pensar, como zinferno que eu ia conseguir achar aquela agulha, no meio de tanta palha. E lembrei logo do ditardo que diz que é a coisa mais difícil do mundo, é encontrar uma agulha no palhol... Mas foi aí que eu tomei corage e fui pensar numa forma de encontrar a pestiada da agulha.
Como num tive muito tempo pra pensar. Por que eu tinha de escolher se eu pensava ou tapava os uvido, por causa do choro da Dália. De primeira mão, tive a atitude de baixar as carças, e com a bunda nua, sai sentano no palhol... Se por um acaso a agulha tivesse caído em pé, eu ia sentir a xunxada na bunda! Mas pensando agora, a gente faz o diabo, na hora do nervoso né? Mas oía que trapaíada que eu fiz! Imagina se essa agulha, me entra na bunda? Primeiro me alejava... depois ia pro coração e eu pra casa do chapéu!
Mas, pra minha sorte num funcionou!
Foi então que eu tive uma outra idéia: Peguei um pedaço de imã, marrei num barbante e joguei no meio das palhas... Rimoei, rimoei, rimoei e puxei o cordão. Pra minha surpresa, nem imã mais tinha na ponta!
Já com pouca paciência, fui dentro de casa, chamei os menino-home, que são oitos no total: Antonio, chamando de Toim, João, que a gente chama de Jão, Miguel, que a gente chama de Arcanjo, Roberto, que a gente chama de Carlos, Edson que a gente chama de Pelé e com tanto nome pra aprender, a gente apiligou os outros, só com os final dos nome: Emerson, que a gente chama de son, Marquinho, que a gente chama de Inho e Tunicu, que a gente chama de Ni, por questões de estilo.
Então veio os meninos, daí eu falei pra eles fazer da palha, dinheiro, e de sí, Silvio Santos, e começar a jogar as palhas pra cima, até um se istrepar na agulha. E então, os meninos começou! Foi um joga, joga, palha sobe, palha desce, e nada de nenhum menino dá um grito de dor. Pelo contrário, gritavam e era de alegria. Era um tal de: -Quem quer dinhero?, Olha o viãozinho... que eu já num me guentava mais!
Na boca da noite, quando nenhum menino güentava mais levantar os braço, eu despachei eles e mandei voltarem pra casa. O negócio, só tinha se complicado mais, agora era palha, por tudo quanto é canto. Eu cansado, daquele dia, ou melhor, daquela tarde, fui dormir... Disse pra Dália, que naquele outro dia, ia achar a agulha dela... Falei isso pra ver se contetava a bichinha, e ela vortasse a comer.
Quando eu deitei pra dormir, o sono num vinha... Então comecei a contar carneiro. Sempre deu certo! Desde que aprendi a contar, com o topa. No meio do sono, eu tive uma solução de como achar a agulha: No sono, eu pegava uma caixa grande, sentava nas palhas, e, de uma em uma, ia desfiando elas e pondo na caixa. No sono, o trem parecia ser tão cansativo que eu suava de verdade... E suei mais, ainda, quando comecei a fazer isso, na vida real. Comecei a desfiar as palhas, uma por uma, fio por fio... E a Dália. A Dália nem conversava mais! Já tava sem fala de tanto chorar por causa da agulha. Eu já estava me sentindo, parte do palhol. O café da manhã, eu tomei lá, meio dia, as menina levaro minha farofa, de tarde, me deram manga, de noite me deram feijão de corda com ovo de codorna, pra ver se parava de suar mais... E esse cardápio me acompanhou nessa labuta, três dias e três noites, até eu passar pela mão o último fio de palha... Fiquei besta! Besta, com o tanto de mosca que me rodiava. Também já era três dias sem banho. Se antes eu já num tomava direito, imagine agora. Fiquei mais besta! Mais besta por ver que as palhas, de amarela, tavam vermeias de tanto sangue que minava de minha mão. E muito mais besta ainda, por notar que a infeliz da agulha não tava naquelas palhas. Foi a prova que eu precisava pra me dar conta de que eu não ia mais fazer aquele trabalho de besta. Foi quando, virado na mulesta, sai do palhol e fui pro quarto, falar pra Dália que não iria procurar mais agulha nenhuma não... Quando cheguei no quarto, que abrir a porta, encontrei a Dália, dano uns pulo, na cama. Soltano cada cabriola, que ganhava da Daiane dos Santos. E eu ingênuo, perguntei a Dália, o que tinha acontecido. Ela feliz, virou pra mim e gritou que tinha achado a agulha. Eu não sabia se cabriolava com ela de alegria, ou chorava de tristeza, pelo trabalho em vão... E mesmo, quase sem pensar, eu perguntei pra ela, onde ela tinha encontrado a agulha... E ela me disse, que naquele dia de manhã, como eu tava muito ocupado desfiando as palhas, ela foi juntar os esterco. Disse que nem imaginava que podia encontrar a agulha nas bosta dos boi. E encontrou!
Nessa hora, fiquei igual um idiota, num sabia se dava um fim na desgrassada da agulha, se mandava o boi pro matadouro pra ele num aprender a comer mais as agulhas alheias, ou se eu voltava pra cidade, e ia tomar umas aulas num curso de Pensamento Estratégico, pra da próxima vez, aprender a pensar e dispensar o problema, de frente pra traz e traz pra frente. Mas eu me perdoei. Perdoei o boi, e a peste da agulha. Tudo pela Dália. Também desse dia pra cá, a Dália só costurava no chão liso. A agulha, foi guardada num baú, dentro do quarto, e a Dália, custurava com umas agulhas parecidas que eu encontrei na cidade.
Desse  dia pra cá, percebir o quanto, os problemas podem ser difícis e fáceis, se repensado, em diversas possibilidades.

AUTOR: Rone Brito.
Ruy Barbosa, -BA. 2012

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