Recebi a
grande oportunidade de conhecer esse conto ainda criança, quando minha
professora do 4º ano, presenteou-me com uma coleção de livros literários infantis, chamado: “Literatura em minha casa.” A princípio era uma proposta
de leitura involuntária (para estimular a leitura, como era se referido naquele
tempo), porém me dediquei ao máximo à coleção. Eram cinco fascículos. Neste caso,
ressalvo o segundo deste: "De conto em conto, que abarcava uma coleção de narrativas,
escritas por grandes astros da nossa literatura. Enfim, de todas, tive um
brilho especial, ao ler o conto a seguir. Reli várias vezes e a cada leitura,
algo especial surgia e ao mesmo tempo me impugnava... Algo que eu sabia que era
simples e ao mesmo tempo complexo em perceber...
Negócio de menino com menina
O menino, de uns dez anos, pés no
chão, vinha andando pela estrada de terra da fazenda com a gaiola na mão. Sol forte
de uma hora da tarde. A menina, de uns nove anos, ia de carro com o pai, novo dono da fazenda. Gente de São Paulo.
Ela viu o passarinho na gaiola e pediu ao pai:
- Olha que lindo! Compra pra mim?
O homem parou o carro e chamou: - Ô menino.
O menino voltou, chegou perto,
carinha boa. Parou do lado da janela da menina. O homem:
- Esse passarinho é pra vender?
- Não senhor.
O pai olhou para a filha com uma
cara de deixa pra lá filha pediu suave como se o pai tudo pudesse:
- Fala pra ele vender...
O pai, mais para atendê-la,
apenas intermediário:
- Quanto você quer pelo
passarinho
- Não tou vendendo não senhor.
A menina ficou decepcionada e
segredou:
- Ah, pai, compra.
Ela não
considerava, ou não aprendera ainda, que negócio só se faz quando existe um
vendedor e um comprador. No caso, faltava o vendedor. Mas o pai era um homem
de negócios, águia da Bolsa, acostumado a encorajar os mais hesitantes ou a
virar a cabeça dos mais recalcitrantes:
- Dou dez mil.
- Não senhor.
- Vinte mil.
- Vendo não.
O homem meteu a mão no bolso,
tirou o dinheiro, mostrou três notas, irritado.
- Trinta mil.
- Não tou vendendo, não, senhor.
O homem resmungou "que
menino chato" e falou pra filha:
- Ele não quer vender. Paciência.
A filha, baixinho, indiferente às
impossibilidades da transação:
- Mas eu queria. Olha que
bonitinho.
O homem
olhou a menina, a gaiola, a roupa encardida do menino, com um rasgo na manga, o
rosto vermelho de sol.
- Deixa comigo.
Levantou-se, deu a volta, foi até
lá. A menina procurava intimidade com o passarinho, dedinho nas gretas da
gaiola. O homem, maneiro, estudando o adversário:
- Qual é o nome deste passarinho?
- Ainda não botei nome nele, não.
Peguei ele agora.
O homem, quase impaciente:
- Não perguntei se ele é batizado
não, menino. É pintassilgo, é sabiá, é o quê?
- Aaaah. É bico-de-lacre.
A menina, pela primeira vez,
falou com o menino:
- Ele vai crescer?
O menino parou os olhos pretos
nos olhos azuis.
- Cresce nada. Ele é assim mesmo,
pequenininho.
O homem:
- E canta?
- Canta nada. Só faz chiar assim.
- Passarinho besta, hein?
- É. Não presta pra nada, é só bonito.
- Você pegou ele dentro da
fazenda?
- É. Aí no mato.
- Essa fazenda é minha. Tudo que
tem nela é meu.
O menino
segurou com mais força a alça da gaiola, ajudou com a outra mão nas grades. O
homem achou que estava na hora e falou já botando a mão na gaiola, dinheiro na
outra mão.
- Dou quarenta mil, pronto. Toma
aqui.
- Não senhor, muito obrigado.
O homem, meio mandão:
- Vende isso logo, menino. Não tá
vendo que é pra menina?
- Não, não tou vendendo não.
- Cinqüenta mil! Toma! - e puxou
a gaiola.
Com cinqüenta mil se comprava um
saco de feijão, ou dois pares de sapatos, ou uma bicicleta velha.
O menino resistiu, segurando a
gaiola, voz trêmula .
- Quero não senhor. Tou vendendo
não.
- Não vende por quê, hein? Por
quê?
O menino acuado, tentando
explicar:
- É que eu
demorei a manhã todinha pra pegar ele e tou com fome e com sede, e queria ter
ele mais um pouquinho. Mostrar pra mamãe.
O homem voltou para o carro,
nervoso. Bateu a porta, culpando a filha pelo aborrecimento.
- Viu no que dá mexer com essa
gente? É tudo ignorante, filha. Vam'bora.
O menino chegou pertinho da
menina e falou baixo, para só ela ouvir:
- Amanhã eu dou ele pra você.
Ela sorriu e compreendeu.
AUTOR: Ivan Angelo.
O conto acima foi originalmentepublicado em “O ladrão de sonhos e outras histórias” (1995).
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